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MI CASA... SU CASA...

"Toda noite de insônia / Eu penso em te escrever... // Escrever uma carta definitiva / Que não dê alternativa pra quem lê... // Te chamar de carta fora do baralho / Descartar, embaralhar você..."

sábado, 27 de junho de 2020

Quase

Eu nunca gostei muito de silêncio. Irônico, quando passo - e sempre passei - a maior parte do meu tempo sozinha. Talvez isso venha da minha família, em que todo mundo fala alto e ao mesmo tempo, ou da forma que eu sempre aceitei que nunca havia só uma Mariana dentro de mim. Não gosto do silêncio depois das perguntas - mesmo daquelas em que o ponto de exclamação ficou implícito -, do silêncio na minha própria cabeça - por isso demoro a dormir -, e o silêncio da casa durante a madrugada.

Eu ouço música o tempo todo, inclusive quase a totalidade deste blog foi escrito enquanto eu ouvia as mais variadas canções; e o próprio "endereço" que escolhi veio de uma que me marcou na adolescência. Eu meço o tempo em número de músicas, e a maioria das legendas das minhas fotos vem delas. E, para cada pessoa que me fez sonhar, há uma playlist diferente. O tema de "Toy Story" para as grandes amizades, o de "Tarzan" para os sobrinhos, o de "Enrolados" para a paixonite da faculdade.

"Meu disfarce", para quem eu queria que me conhecesse além dele. Para quem me oferece um silêncio sepulcral, no momento em que eu mais sinto falta do som. Porque, há meses, as risadas vêm da televisão e o sorriso aberto na foto não faz barulho algum. Eu gosto de sorrisos.

Gosto de áudios que espantam a solidão. De ouvir as risadas dos amigos enquanto contam casos que provavelmente eu só veria graça se também tivesse vivido, mas dos quais eu rio por causa das risadas deles. Gosto do tom de voz abaixando quando a pessoa começa a fazer uma crítica e não sabe como vamos reagir, e do oposto, quando a voz se eleva com a certeza de que a conversa soará agradável.

Eu gosto de tudo que demonstra presença, mesmo que não física. Gosto de ser marcada em desafios e memes, por gente que sabe que vou entrar na brincadeira ou só entender a brincadeira em si. Gosto de músicas que a gente canta em dueto, e da pausa nos instrumentos justo quando a voz está no auge. Gosto de coração batendo, calor do contato entre as peles e de olhares que chegam a ser escandalosos.

E, por mais incrível que possa parecer, gosto de "flores", e ainda estou falando de som. Gosto de nomes, e do apelido que você aprendeu a me chamar e que eu não gostava na infância. Gosto da naturalidade do diminutivo que não me diminui, e da proximidade que ele traz. Mas gosto mais da intimidade do meu nome inteiro proferido em uma troca de olhares.

Meu disfarce é o mulherão das fotos, que nem parece a que trouxe uma mala cheia de bonequinhos. É a mulher que foi chamada de espontânea, mesmo depois de ensaiar inúmeras formas de te trazer para perto. A mulher real é a que não consegue te manter aqui, e que está ouvindo "tratame suavemente" como se fosse a primeira vez, e que felizmente nunca a atribuiu a ninguém. Porque, "apesar de querer", eu nunca mais consegui não pensar em você quando canto sobre esses olhos que eu nunca vi tão perto a ponto de bater o cílio no meu.

Eu escrevi ontem sob uma perspectiva muito diferente da atual. Sob a ótica de quem acreditou que teve uma ótima conversa, e que hoje acabou percebendo que foram apenas perguntas e respostas. Eu não posso continuar me apaixonando por alguém que me vê como uma entrevistadora. Eu não posso continuar falando com alguém que não quer me ouvir; nem tentar mostrar quem sou além dos rótulos e primeiras impressões, para alguém que me vê mas não me enxerga. Enxergar exige a atenção aos detalhes, à cor da aura e das marcas que o sorriso deixa no rosto depois de desaparecer.

Eu gosto de olhos que sorriem, menos como vidro e mais como alma. Eu sinto falta do barulho que os olhos nos olhos fazem dentro de mim. E, no meio de tanto que eu tentei escrever sobre quem sou, só havia o enorme esqueleto da nossa conversa que morreu esquecida, e que me dói como se assassinada. Eu estava olhando sob a óptica errada. Do lado de cá, meus olhos pareceram diminuir ao longo das horas, foscos. Os seus estavam fechados. Ou talvez só estivéssemos olhando para direções completamente diferentes.

Eu nunca vou descobrir quem você é, por trás da camisa perfeitamente alinhada e postura reta. Mas essa foi uma tentativa muito real pra mim, e importa. No presente, porque vai ser o que vou levar pro futuro e emoldurar ao lado dos "quase". Vou tentar não te ver mais como meu assunto inacabado. Eu nunca gostei do silêncio que fica depois do fim daquilo que não começou.

É que eu acreditei de verdade que "quase sempre é muito cedo para ser tarde demais".

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