Read around the world / Lea todo el mundo...

MI CASA... SU CASA...

"Toda noite de insônia / Eu penso em te escrever... // Escrever uma carta definitiva / Que não dê alternativa pra quem lê... // Te chamar de carta fora do baralho / Descartar, embaralhar você..."

sábado, 11 de julho de 2020

Variações de um mesmo tema

A vida toda eu cresci acondicionada à acreditar que o amor (romântico) viria naturalmente. Que chegaria pronto e caberia a mim apenas desfrutar de seus louros. Em partes, estive baseada na história de meus pais, que se apaixonaram ainda na adolescência e que - apesar de terem se perdido em parte da idade adulta - se reencontraram e foram juntos até o fim. Em outras partes, nutrida pelo forte instinto que me dizia em quem valia a pena apostar.

Para ser sincera, eu recebi poucos foras. A verdade é que não investi antes de ter certeza de que não enjoaria e, sobretudo, não disse que gostava de alguém a não ser que tivesse certeza de que estava disposta a sofrer por isso. Na maioria das vezes eu me omiti. Fingi que não gostava ou, se chamei para sair, sempre foi muito mais na cota da "atração física", do que na da "atração psíquica". Ninguém gosta de ser rejeitado.

Eu gostei de muitas pessoas - este blog é prova concreta disso -, mas não me declarei para muitas (talvez devesse ter feito isso). Claro que, na prática, eu contabilizei todas as rejeições como iguais, mas muitas aconteceram por mim mesma que, por medo ou por não ter certeza, me calei. A maioria das minhas paixões se foi do mesmo modo que chegaram: calma e silenciosamente.

Talvez eu esteja escrevendo tudo isso à toa, mas acordei com uma necessidade imensa de fazê-lo. Talvez o amor venha de forma natural, afinal, ainda não veio e eu não deveria opinar sobre algo que não conheço. Mas eu acho que é algo que se trabalhe. Eu não gosto da pessoa que idealizei;gostei durante um mês, quando o conheci, e hoje sinto uma espécie de repulsa a ouvir falar dele. Um homem com todas as características que eu mais queria e uma clara devoção a mim, e nada adiantou. Ele me beijou, e foi ruim. Ele me pediu em namoro, eu disse não. Ele me pediu mais tempo, e eu quis sumir.

Hoje estou com medo de ser essa pessoa para alguém. Não que eu esteja dizendo que sou tudo o que - em teoria - ele quer. Só tenho medo de estar rodeando alguém que já se decidiu. A pessoa de quem eu gosto, e para quem estou correndo meia maratona para me fazer notar, talvez esteja correndo essa mesma meia maratona por outra pessoa. Ou, talvez, só esteja correndo de mim.

Eu não gostei dele instantaneamente. Talvez (minha palavra favorita hoje) essa seja a diferença. Normalmente, me apaixono no primeiro olhar trocado ou na primeira conversa (para paixões virtuais), mas não foi assim. Veio gradativamente. Claro que os olhares contaram muito - apesar de eu não saber exatamente qual a história por trás deles -, mas foram as conversas. No plural e, na realidade, fora de contexto pessoal. A primeira cena que me vem a cabeça quando pergunto "quando?", é uma reunião.

Ele não é como eu fantasiei. Provavelmente também não será com ele que vou descobrir se amor é construído. E tudo bem, não precisa ser. Eu ainda tenho uma vida inteira pra tentar e não me arrepender, e quando disse no texto passado que ele já não era meu assunto inacabado, era sobre isso. Não precisa dar certo agora.

Eu me conheço melhor hoje, também sei melhor do que eu gosto e o que eu quero para mim. Minhas fantasias românticas são mais amplas e mais realistas. O passado e o futuro são tempos que eu não controlo, e o presente - prepare-se para o clichê - é uma dádiva. Eu não tenho que ser melhor do que ninguém, apenas ser melhor do que eu fui ontem. E hoje eu tenho certeza de que sou uma mulher maravilhosa, e muito capaz de me fazer feliz (a gente não devia depositar essa responsabilidade nos braços de mais ninguém).

Ainda assim, eu quero um parceiro para a vida. Mas ela há de continuar independente disso. Tudo o que eu vivo só faz parte da minha jornada. E espero cruzar a jornada de outra pessoa, um dia. Mesmo que não seja a dele. E talvez a minha canção para hoje seja muito menos romântica do que eu esperava:
Sean eternos los laureles / Que supimos conseguir / Coronados de gloria vivamos / O juremos con gloria morir 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

"Espontânea"

Há menos de uma semana fui caracterizada como "espontânea" por alguém que eu queria que me enxergasse quando me visse. E eu, que racionalizo tudo que expresso tão emocionalmente, questionei todos os significados intrínsecos nessa palavra, porque ela não me soava boa (como se eu fosse precipitada e um pouco fugaz) e - consequentemente - eu não me senti boa o suficiente. Hoje me pergunto: "boa o suficiente para quê?"

E escrevi todos os dias. Rascunhos mal escritos sobre tudo o que eu não podia falar para ele mas que, ainda assim, precisava dividir com alguém. Tudo na ameaça fantasma daquela palavra que ousou ameaçar a veracidade de minha existência - mas era só a visão deturpada dele. Que me incomodou porque parte de mim desejou se encaixar no rótulo, e outra parte fantasiou uma realidade em que ele pudesse me descrever. Minha vida seria muito diferente se eu não camuflasse tantos sentimentos.

Então eu tive um final de semana caótico - ainda que a realidade dessa quarentena inteira já seja meio surreal. Noites de êxtase e depressão alternadas, na mistura louca de meus sentimentos que não encontravam lugar. Ele ainda é o cara que me interessou sabe-se lá exatamente por que razão? Eu ainda sou a pessoa que era quando se interessou por ele? As coisas mudam conforme a gente descobre o outro. E mudam muito mais quando a gente descobre a si mesmo.

Eu vivi um turbilhão porque tudo na minha vida é vivido assim. Eu aumento cada detalhe para explorar todas as suas faces e tirar o máximo de cada instante. Eu destrincho horas em minutos, frases completas em palavras soltas e reticências; e estudo cada um desses elementos. Eu leio coisas que não foram escritas, porque o tempo todo eu estou em busca de sensações que vão além da superficialidade. Eu quero uma vida ingente.

Então, inevitavelmente, eu sofro como se fosse a primeira vez que eu me deparo com a última vez. Como se não tomasse aquela música como um lema e não tivesse visto o fim do mundo algumas vezes e na manhã seguinte estivesse tudo bem. Meu sobrenome é intensidade e nada que eu penso tem um sentido claro. O que eu quis dizer pela manhã não é mais o bastante à noite. No escuro eu quero me mostrar ainda mais.

Lágrimas roladas, vozes alteradas, auto estima questionada e loucura acumulada. Madrugada de olhos abertos, criando a ilusão de um coração fechado - essa é a última vez. Na manhã seguinte, faço café dançando música brega polonesa que repete o diálogo da minha própria mãe: "você ficará sozinha se continuar assim". Mas eu só sei ser assim. E não, a primeira palavra que eu pensei para me descrever não foi "espontânea"; foi "imensa". Eu não consigo me diminuir para me encaixar nos planos pequenos de um cara qualquer.

Sei porque já tentei. Já desbotei um pouco as mil cores em mim, para me destacar um pouco menos. Já diminui o tom de voz e me fiz mais séria. Mas eu gosto de falar alto e sorrindo. Gosto de abraço apertado e gosto de beijos roubados. Gosto de sentir a chuva caindo, e a primeira imagem que me veio ao escrever isso foi a maravilha de dançar na neve em meio ao passeio público. Eu não gosto de nada que me tolha, que me encolha. Meus pulmões se expandem quando eu amo, porque amor me inspira. O silêncio que recebo como resposta me expira.

E eu não mereço nada que me tire o ar que me compõe, porque esse é o meu elemento. Porque eu não posso ser fixada à terra como se meus passos não fossem impulsionados pelo vento. Quando eu te rodeio, você não me ouve porque eu não estou no chão. Eu vim voando ao enxergar uma brecha, mas também é assim que eu vou. Solta, ainda que por vezes me questione se é liberdade ou solidão.

Então talvez no final você esteja certo e eu seja espontânea - eu nunca conseguiria ser artificial, mesmo que eu tentasse me moldar pra ser quem eu acho que você gostaria que eu fosse. Talvez o mulherão que, em fotos, parece explícito, não seja uma personagem - ou "meu disfarce", como recentemente tenho chamado. Talvez ela seja só a mulher selvagem em mim, começando a aparecer (admito que eu a tenho buscado). Mas eu não acho que sou uma das mulheres que correm com os lobos. Eu sempre fui uma ave.

Não canto quando presa. Não abandono o ninho enquanto ainda há algo que eu acredite que possa nascer. E, quando essas expectativas nutridas começam a crescer, eu preciso que voem comigo. E sobretudo, como a fênix, eu ressurjo das minhas próprias cinzas. Mas eu não sou mitológica, nem poderia ser o sonho de alguém.

Não são suas palavras que me dizem o que preciso saber, mas seu silêncio. E nele eu amadureço. Você não é mais meu assunto inacabado, e eu já estou pronta para ir embora.


domingo, 28 de junho de 2020

Complexação

Em tempos de isolamento social, eu tenho receio de me isolar ainda mais dentro de mim mesma. Na contracorrente, tenho sentido uma necessidade crescente de escrever. Eu já não leio - não consigo entrar na história -, então talvez eu precise esvaziar a mente. Minha história que parece parada está com pressa de continuar.

De súbito, nem sei se resta algo a ser dito. O que não escrevi, ficou nas entrelinhas e é irônico que eu espere um julgamento. Eu espero ansiosa e urgente por alguém que veja algo que eu não fui capaz, porque eu quero ver todos os lados do que estou vivendo, como se cada uma das seis personalidades intrínsecas no meu "eu" tentasse se sobressair. Eu quero essa vida online na realidade, seu sorriso em 3D e a voz por trás das palavras que fluem constante e naturalmente.

Quero a novidade dessa experiência repetida. Esse imenso déjà vu, e esse turbilhão de emoções. Entender essa montanha-russa de sentimentos, os dias felizes e os melancólicos alternados, e o escuro se traduzindo em luz. Estou com pressa de encontrar sua calma, de me equilibrar na corda bamba do meu próprio coração. E se isso tudo for um jogo, eu peço azar.

Na primeira vez, não achei que haveria uma segunda. Na segunda, logo eu que não tenho religião, rezo por não precisar de uma terceira. Faço as contas pra esquecer os números, escrevo o que não se resume em letras. Sua normalidade me enlouquece, e mais parece uma forma de expressar a minha concentração - é tudo sobre você.

Então eu peço ao tempo que me dê mais tempo pra eternizar, embora eu não saiba exatamente o que. Um sentimento crescente em mim, um interesse ou atenção vindo de você. As conversas que correm por si mesmas, sem a necessidade de um empurrão. Só peço o primeiro "oi", tão mais complicado que todas as outras frases que saem desenhando seu próprio contexto. Eu não consigo ensaiar nossos diálogos.

Nos últimos dias eu vi mais de você do que em meses antes disso, e aprender que você não é só o que aparenta ser requer dedicação. Requer cuidado e querer. A gente precisa estar disposto e, novamente, disposição não é algo que tem crescido neste isolamento. Às vezes a vontade é de desconectar de tudo e sumir por um dia ou dois. Dormir um sono que eu não durmo há anos e acordar em outra realidade. É me esconder de mim, ao contrário daquela música que me inspira a anos a ser mais "caçadora de mim".

Mas estou te procurando. Há muito tempo. Presa a canções, entregue a paixões. Correndo. Como uma daquelas mulheres que correm com lobos. Estou te procurando dentro da mulher que eu sou. Porque eu também sou muito mais do que você sabe. E estou tentando não me perder nessa busca.

Mas esse é só mais um dia, e seu discorrer ainda não está claro. E tudo bem. Nós não temos que ser iguais, porque há muito mais beleza nas nossas diferenças. No complemento teórico de duas partes que já são inteiras. Porque toda eu deseja todo você. Porque, como no poema mais clichê, é você. Porque sou eu. E, se me perguntar, eu ainda não vou saber responder.

Essa jornada não é sobre respostas. É sobre perguntas. E eu volto a te convidar.

sábado, 27 de junho de 2020

Quase

Eu nunca gostei muito de silêncio. Irônico, quando passo - e sempre passei - a maior parte do meu tempo sozinha. Talvez isso venha da minha família, em que todo mundo fala alto e ao mesmo tempo, ou da forma que eu sempre aceitei que nunca havia só uma Mariana dentro de mim. Não gosto do silêncio depois das perguntas - mesmo daquelas em que o ponto de exclamação ficou implícito -, do silêncio na minha própria cabeça - por isso demoro a dormir -, e o silêncio da casa durante a madrugada.

Eu ouço música o tempo todo, inclusive quase a totalidade deste blog foi escrito enquanto eu ouvia as mais variadas canções; e o próprio "endereço" que escolhi veio de uma que me marcou na adolescência. Eu meço o tempo em número de músicas, e a maioria das legendas das minhas fotos vem delas. E, para cada pessoa que me fez sonhar, há uma playlist diferente. O tema de "Toy Story" para as grandes amizades, o de "Tarzan" para os sobrinhos, o de "Enrolados" para a paixonite da faculdade.

"Meu disfarce", para quem eu queria que me conhecesse além dele. Para quem me oferece um silêncio sepulcral, no momento em que eu mais sinto falta do som. Porque, há meses, as risadas vêm da televisão e o sorriso aberto na foto não faz barulho algum. Eu gosto de sorrisos.

Gosto de áudios que espantam a solidão. De ouvir as risadas dos amigos enquanto contam casos que provavelmente eu só veria graça se também tivesse vivido, mas dos quais eu rio por causa das risadas deles. Gosto do tom de voz abaixando quando a pessoa começa a fazer uma crítica e não sabe como vamos reagir, e do oposto, quando a voz se eleva com a certeza de que a conversa soará agradável.

Eu gosto de tudo que demonstra presença, mesmo que não física. Gosto de ser marcada em desafios e memes, por gente que sabe que vou entrar na brincadeira ou só entender a brincadeira em si. Gosto de músicas que a gente canta em dueto, e da pausa nos instrumentos justo quando a voz está no auge. Gosto de coração batendo, calor do contato entre as peles e de olhares que chegam a ser escandalosos.

E, por mais incrível que possa parecer, gosto de "flores", e ainda estou falando de som. Gosto de nomes, e do apelido que você aprendeu a me chamar e que eu não gostava na infância. Gosto da naturalidade do diminutivo que não me diminui, e da proximidade que ele traz. Mas gosto mais da intimidade do meu nome inteiro proferido em uma troca de olhares.

Meu disfarce é o mulherão das fotos, que nem parece a que trouxe uma mala cheia de bonequinhos. É a mulher que foi chamada de espontânea, mesmo depois de ensaiar inúmeras formas de te trazer para perto. A mulher real é a que não consegue te manter aqui, e que está ouvindo "tratame suavemente" como se fosse a primeira vez, e que felizmente nunca a atribuiu a ninguém. Porque, "apesar de querer", eu nunca mais consegui não pensar em você quando canto sobre esses olhos que eu nunca vi tão perto a ponto de bater o cílio no meu.

Eu escrevi ontem sob uma perspectiva muito diferente da atual. Sob a ótica de quem acreditou que teve uma ótima conversa, e que hoje acabou percebendo que foram apenas perguntas e respostas. Eu não posso continuar me apaixonando por alguém que me vê como uma entrevistadora. Eu não posso continuar falando com alguém que não quer me ouvir; nem tentar mostrar quem sou além dos rótulos e primeiras impressões, para alguém que me vê mas não me enxerga. Enxergar exige a atenção aos detalhes, à cor da aura e das marcas que o sorriso deixa no rosto depois de desaparecer.

Eu gosto de olhos que sorriem, menos como vidro e mais como alma. Eu sinto falta do barulho que os olhos nos olhos fazem dentro de mim. E, no meio de tanto que eu tentei escrever sobre quem sou, só havia o enorme esqueleto da nossa conversa que morreu esquecida, e que me dói como se assassinada. Eu estava olhando sob a óptica errada. Do lado de cá, meus olhos pareceram diminuir ao longo das horas, foscos. Os seus estavam fechados. Ou talvez só estivéssemos olhando para direções completamente diferentes.

Eu nunca vou descobrir quem você é, por trás da camisa perfeitamente alinhada e postura reta. Mas essa foi uma tentativa muito real pra mim, e importa. No presente, porque vai ser o que vou levar pro futuro e emoldurar ao lado dos "quase". Vou tentar não te ver mais como meu assunto inacabado. Eu nunca gostei do silêncio que fica depois do fim daquilo que não começou.

É que eu acreditei de verdade que "quase sempre é muito cedo para ser tarde demais".

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Fibrilação

Eu disse que conto tudo sobre mim aqui. Não é verdade. Tem coisas sobre mim que eu compartilho com poucas e importantes pessoas, e tem coisas que compartilho com pessoas aleatórias, só por me sentir confortável no momento. Mas quando eu disse que meus amigos poderiam enumerar meus erros, era verdade - parcial.

Eu sei que, para quem não quer ser julgada, eu dou muitas chances. Eu me exponho muito, acho que na vertente louca do tal "dar a cara a tapa", mas às vezes não é a minha cara. Como na música - e agora sou eu quem vai citar sertanejo - "digo coisas que não faço, faço coisas que não digo". Eu criei uma personagem, porque não sei exatamente como expressar a mulher que me tornei, e muitas vezes ainda acho que não terminei de me tornar. Me sinto evoluindo ao mesmo tempo que me sinto parada e, ao mesmo tempo que reclamo por não verem quem eu sou por trás dessa fachada, eu me fecho.

Eu espero que me descubram sem que eu diga. Porque eu tenho medo de não ser alguém que valha a pena. Por meses a fio eu me perguntei se devia ou não mandar uma nova mensagem, porque todas as vezes que eu abria aquela conversa, eu me perguntava o que tinha a oferecer.

Ainda não sei, espero descobrir logo. Porque, sinceramente, se me perguntar o que eu gosto em você, eu também não sei. Mas é algo forte e eu não quero passar o resto da minha vida tentando ignorar, numa lista de intermináveis "quase". Porque eu "quase" tentei. Porque eu "quase" descobri. E porque isso "quase" fez toda a diferença na minha vida.

A gente pode estar perdendo tempo. A gente pode se tornar melhores amigos. Ou pode ser pra sempre e, logo eu que não me faço feliz todos os dias, posso te fazer feliz. E eu me culpo um pouco por ter tanta pressa pra chegar num lugar que ainda nem sei qual é. Mas é irônico que você tenha dito - em um contexto completamente diferente - que eu tenho potencial. Essa é a palavra que uso para descrever o que vejo em nós.

Um potencial imenso de ser algo ótimo - e essa impressão ainda é a que eu tenho agora. A outra sensação é medo. Um medo quase do mesmo tamanho, porque eu tenho uma tendência infeliz de me auto sabotar, de criar obstáculos onde não existem e de antecipar "nãos". Como se eu estivesse errada em continuar tentando diante de todos os fracassos anteriores. Mas, como Simba, eu tento rir na cara do perigo.

Eu gosto de você - e não queria usar essa palavra. Não queria deixar essa mistura de inocente com substancial, mas é exatamente essa mistura que parece sacudir nas minhas entranhas quando eu penso se vou ou se fico, se mando uma nova mensagem ou se ouço os conselhos da minha amiga - é que não mandar parece desistir, como se a primeira impressão da realidade não me interessasse.

Estou escrevendo porque interessa. Muito mais do que eu gostaria de estar registrando aqui para a posteridade, porque eu nem sei se você estará aqui na posteridade. Mas eu te disse que era uma pessoa ansiosa, e essa era uma verdade total.

Estou escrevendo porque vale a pena. Porque assumo os riscos. Porque estou aqui para o que for bom, e para o que nem tanto.

Escrevo porque o que sabemos é uma gota e o que ignoramos é um oceano, e eu não tenho medo de me afogar.

Tenho medo das coisas rasas.

sábado, 20 de junho de 2020

"Tem que ser imenso para saber ser sozinho."

Muita coisa está passando pela minha cabeça agora. Os motivos para estar escrevendo, a frase que me trouxe aqui, a ideia plantada ontem pela minha amiga. Mas a verdade é que eu não sei bem.

Desde a adolescência, sempre usei este mesmo blog para escrever sobre meus sentimentos, mas eu era só uma garotinha - como a música que usei no link -, e minha única preocupação real era se encontraria um amor romântico um dia. Depois, a preocupação em lidar com todas as consequentes desilusões amorosas. E eu me acostumei com isso.

Tenho 28 anos agora, e continuo solteira. Não no verbo "estar", que é passageiro; mas no verbo "ser". E tem horas que eu sei lidar com isso, mas não é sempre. Às vezes eu ainda quero muito encontrar alguém - quase como se tivesse urgência. Mas não só porque me falta esse amor romântico.

Tem coisas sobre mim que eu nunca coloquei aqui. Não sei bem se por medo ou se por considerar tudo muito íntimo, mas que talvez esteja na hora de externar. Quase todo mundo que me lê me conhece, e sabe do que estou falando. Mas, para falar de mim e de amor, preciso falar do maior amor do mundo, e ele está me faltando também. E, desta forma, esta postagem acabou sendo convertida nos meus pais.

Tem 1 ano e 4 meses, e ainda é difícil falar sobre. Por isso não conseguia trazer para cá. Eu tenho me treinado, conversado com amigos próximos e familiares, mas escrever sempre torna as coisas mais reais - embora eu saiba bem dessa realidade. Eles se foram e não voltam mais, e essa falta é algo que eu vou precisar me acostumar com o tempo; mas eu sinto que estou mudando todos os dias e que eles foram toda a minha base e não puderam ver o todo.

Esta semana completou 10 anos do falecimento do meu avô materno, e eu cheguei a escrever sobre isso aqui, seis meses depois. Só que eu aceitei melhor do que agora. Meu avô tinha 83 anos, uma vida longa e bem vivida, cercado por suas 8 filhas e seus 11 netos e, por mais que ainda houvesse milhares de coisas que eu quisesse dividir com ele, foi mais fácil olhar para tudo o que - de fato - tínhamos compartilhado. E meu avô se foi pacificamente, num leito de hospital, doente.

Mas meus pais eram saudáveis - ainda que meu pai estivesse caminhando pra uma possível diabetes. Eles ainda tinham muito pra viver, e queriam muito esse tempo que lhes foi tirado. E, naquela manhã em que recebi o pior telefonema do mundo, a garotinha que eu ainda enxergava em mim, morreu um pouco também. E eu tentei continuar esse blog com a temática regular, porque se abrisse essa porta, seria impossível fechar. E porque eu teria que admitir que meus pais morreram apenas uma vez, mas que eu ainda me sinto morrendo todos os dias.

Eu me prendo à ideia de ainda ser uma garotinha, e à necessidade de encontrar o tal amor romântico, porque eu sinto falta das minhas preocupações da época em que iniciei este blog. Hoje, treze anos depois, meu pensamento é fechar as contas no final do mês e encontrar um emprego, se possível já para ajudar a fechar o mês seguinte. E eu tenho pressa em encontrar algo que ocupe minha mente, porque eu me sinto sozinha.

Eu tinha sonhos demais, e cheguei até aqui sem tê-los realizado. Eu não vou me tornar mãe aos 28 - e tudo bem quanto a isso - e provavelmente não vou ter a carreira dos sonhos aos 30, embora eu espere estar construindo-a quando chegar lá. E, para tentar equilibrar, eu ao menos consegui sair do país pela primeira vez e foi uma experiência realmente importante.

Então esse texto ficou assim, completamente bagunçado, como tudo mais em minha vida, porque eu não sou boa em escrever sobre outra coisa que não seja o tal do amor romântico - inclusive esse deve ser o termo mais repetido ao longo dessas linhas. Eu sou boa em falar sobre busca-lo, porque eu nunca estive realmente perto de encontrar. Mas eu sou ruim em falar do que é real pra mim, porque eu não tenho controle de nada. Tudo simplesmente foi acontecendo e eu me sinto completamente perdida em meio a essa espécie de bola de neve.

Nunca foi sobre o que os outros vão ler, mas o que eu vou reler daqui a um tempo, e sobre como vou me sentir em relação a isso. Eu tenho medo de reabrir feridas que não possam ser fechadas, porque agora eu quero conseguir fazer isso. Chegou o momento de deixar o passado pra trás, mas toda vez que eu penso, eu sofro no presente. E me sinto fracassando no hoje.

Eu queria ser a mulher forte que as pessoas têm dito que eu sou, e que eu tento demonstrar. Mas, por trás das fotos e sorrisos, eu me sinto ruindo. Eu tenho medo de não ser forte o suficiente pra ser sozinha, e essa a maior sensação em mim todo o tempo. Solidão e medo são as minhas palavras chave agora, só que eu estou tentando não me trancar mais. Mas talvez esse também seja um erro, porque parece que a mulher que predomina em mim neste momento se esqueceu da própria música que escolheu cantar e...

Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola
Sozinha.