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MI CASA... SU CASA...

"Toda noite de insônia / Eu penso em te escrever... // Escrever uma carta definitiva / Que não dê alternativa pra quem lê... // Te chamar de carta fora do baralho / Descartar, embaralhar você..."

domingo, 3 de maio de 2026

Lúcia

Quase tudo que eu sei de tarô, aprendi tentando ler o que você não me diria. Ou, ao menos, o que eu pensei que não diria. Mas disse. E que, ainda assim, eu achei mais fácil aprender a interpretar 78 cartas a acreditar quando você me dizia que não era tão bom assim. 

É que você demonstrou desde o início o padrão que nunca me satisfaria. Todas as vezes que me deixou e foi e, sobretudo, todas as vezes que voltou diminuindo a minha régua do pouco que aceitaria. E eu, tão passional e criada para acreditar, fui achando que os seus motivos eram os mesmos que os meus. Mas seu sentimento foi sempre menor do que o ego. 

Minha falha foi te idealizar, desenhando na minha história a visão do "homem que esteve comigo no pior momento da minha vida". Mas eu precisei ver de fora, menos enlutada e zero apaixonada, que você foi quem me abandonou deliberadamente por eu estar presa a quem me deixou sem escolher.

E você me disse isso, não o tarô. Porque o meu pior momento não foi o velório ou a missa de sétimo dia. Foi a rotina voltando ao normal, a vida de todo mundo seguindo, e eu ainda sem saber como caminhar diante de tudo que parecia correr. 

É incrível como até nesse momento nos é exigida "felicidade".

E eu não exigi nada. Nem amor, por achar que era base. Mas não é pra todo mundo - e esse eu achei que tinha sido contado pelo tarô, mas também foi você. Então, ao menos nos últimos dois anos, eu sabia que um dia chegaríamos à noite de ontem. 

Ainda assim fui pega de surpresa. 

É que a formalidade, o contrato, não doeu. Foi a celebração. Porque, desde a tarde que eu procurei saber, meu hiperfoco em você voltou de mãos dadas com ela. Mesmo sobrenome, mesma saudade, mesmo elemento e outros detalhes que não sei especificar, embora sinta. Tão parecida, mas com um final diferente. 

Minha segunda falha foi acreditar que era sobre ela. E isso realmente foi o tarô quem me explicou, embora você tenha citado num momento de desatenção minha - "não é que ela seja melhor, é que eu estava disposto". É que eu detesto a teoria do táxi amarelo. 

Na verdade, é que eu odeio teorias em geral. Apesar de ter acreditado em uma que - essa não foi você, e sim o meu melhor amigo - foi esfregada na minha cara: "não importa o que ele sente, importa como ele age.". 

E você a escolheu. E ela escolheu você. E agora, eu vejo que eu também não te escolhi. Eu só te amei, irrefutavelmente. Mas no final daquela conversa, quando nós dois estávamos escolhendo outras pessoas, eu segui sem olhar pra trás. Foi você quem ficou olhando. Justo quem de nós dois não sustenta o olhar. 

Mas ontem quem olhou fui eu. E enfim eu vi, por isso doeu tanto. Porque desde que eu me tornei mãe, eu digo em alto e bom som que não me arrependo de nada na minha história, porque foi a soma de tudo isso que trouxe meu filho pra mim. E te deixar pra trás também foi parte da minha história. 

Então ontem eu olhei pra ela nas fotos e senti algo que eu nunca tinha sentido antes: carinho. Eu vi a filha sem mãe, e vi a mãe. E vi as coisas parecidas na gente que eu nunca soube nomear. E o nome é Lúcia. 

É que eu espero que você nunca se arrependa de nada que trouxe essa menina. E que vocês - agora sim foi o tarô quem me mostrou -, Rei e Rainha de Espadas, se espelhem nessa criação. E que o dia nunca seja nublado, porque ela é a carta do Sol ao lado da Torre. 

Porque diante de todo o amor que eu desperdicei em você e que se esgotou na Roda da Fortuna, que nela ele seja real. Então eu escrevo diante de uma vela acesa, para que a minha solidão em mim mesma não resvale nesse ser humano que eu amaria se pudesse. 

Que seja uma vida de luz, de saúde e de toda a felicidade que te faça permanecer. Porque você merece sentir um amor incondicional que faça tudo ter sentido e, sobretudo, significado. Que ela seja melhor do que o seu melhor sonho. 

Eu sempre vou amar você - porque isso é quem eu sou. Mas hoje eu me permito não gostar mais de você - sem me perder ou invalidar cada sensação ou sentimento ao longo desses tantos anos. "Nunca mais" é o nosso "pra sempre" e hoje eu aceito que não ter durado em nós não diminui nada em mim. Eu fiquei muito tempo tentando provar que eu estava certa. 

E eu estava, de certo modo. Mas a pergunta teve que ser reformulada. Não era sobre o tempo, era sobre a intensidade. 

E fogo consome até a exaustão, mas se extingue rápido. Aquece até queimar. Ilumina, mas expõe as sombras.

A gente sempre foi sobre equilíbrio. Obrigada por ter se espelhado comigo apenas no Rei de Copas, nunca no de Paus.

Eu precisava ter vivido todo o processo, e juntos teríamos causado mais danos do que construção. Eu precisava queimar sozinha. 

A Rainha de Paus sabe a hora de agir. A Alta Sacerdotisa sabe a hora de se retirar. Hoje, eu escolho o poder de observar — em silêncio e sem julgamento.

O Sol brilha lá fora. ☀️

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