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MI CASA... SU CASA...

"Toda noite de insônia / Eu penso em te escrever... // Escrever uma carta definitiva / Que não dê alternativa pra quem lê... // Te chamar de carta fora do baralho / Descartar, embaralhar você..."

quinta-feira, 26 de março de 2026

Entre tanta gente

Tem uma cadeira na minha casa com o seu cheiro e isso ainda me é surreal.

É que se passou mais de uma década e eu pensava estar imune. Ou só queria estar, porque a verdade é que eu nunca superei completamente. Tanto que eu precisei me afastar, deletar pra nem acompanhar de longe, que era pra não pensar... pra não lembrar ou - ainda pior - pra não assumir pra mim que eu nunca fui indiferente. 

É que você sempre causou algo desde a primeira vez que entrou naquela sala 11 anos atrás. No início uma curiosidade que se fantasiou de repulsa porque você parecia simpático demais, educado demais, quase desenhado demais pra fazer parte. Você parecia deslocado. E eu não pretendia me aproximar. 

Mas então uma aula em duplas mudou o curso natural das coisas, ou só rearranjou com naturalidade o que sempre esteve predestinado. É que, depois de extrair o primeiro DNA juntos, a gente extraiu muitas verdades um do outro. 

Mas, naquela época, a maior verdade ficou oculta. Silenciosa. Porque eu nunca me achei boa o suficiente, legal o suficiente, interessante o suficiente... pra quem, cada momento mais, eu achava demais: bom demais, legal demais, interessante demais... pra mim, que era tão insuficiente.

Se serve de alguma coisa, apesar de eu estar me sentindo pequena e tola agora - olhando pra uma cadeira cheia de uma presença invisível -, eu não me sinto insuficiente pra você mais. Na verdade, nem acho que seja esta a melhor palavra, porque não é sobre bastar... é sobre superar. Sobre surpreender e transbordar.

Porque eu aprendi muita coisa depois de perder o medo, minha família, e os vários sonhos que redesenhei ao longo do tempo. Aprendi outras muitas ao reconstruir minha família e minha história, e sobretudo aprendi que nem toda conexão é forjada e que aquelas relações raras e imediatas não podem ser rasas.

E ontem, quando a gente se abraçou como quem tem ciência de que não se vê há um tempo muito superior ao necessário, eu vi que algumas coisas não se perderam no caminho. 

É que foi muito fácil te incluir na minha sala, compartilhar a refeição e alternar risadas com as dores mais profundas da gente - é que nos reconhecemos nelas também. E, no espaço entre as pintinhas no rosto que outrora eu assumi caber tudo de mim, na noite passada eu vi o telefone sem fio do elevador daquele prédio antigo que você me apresentou.

Eu não quero te perder por mais uma década. 

E seu sorriso ficou ótimo no chão da minha casa. 

"O desfile seguiu / de repente o menino sumiu / eu queria estar lá / entre tanta gente / pra então o achar"

Te vejo de novo? 


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