Read around the world / Lea todo el mundo...

MI CASA... SU CASA...

"Toda noite de insônia / Eu penso em te escrever... // Escrever uma carta definitiva / Que não dê alternativa pra quem lê... // Te chamar de carta fora do baralho / Descartar, embaralhar você..."

sexta-feira, 27 de março de 2026

Carta a São José

Belo Horizonte, 09 de abril de 2015

Caro São José, 

Hoje vi uma recomendação de que, se eu quisesse quebrar o padrão que aos poucos tem me quebrado, eu deveria lhe escrever - como uma oração - descrevendo o que eu espero de Deus. Mas eu não rezo e, embora tenha buscado por anos algo em que acreditar, eu nunca encontrei. Então talvez essa carta seja pura hipocrisia. E, sinceramente, ela não estará muito de acordo com as regras. 

É que, se eu fosse descrever alguém, seria uma pessoa real e não uma ideia, um sonho. E, se eu fizer desta forma, o senhor vai me conceder? 

Eu conheci um artista uma vez. O nome dele é Michelangelo, ou pelo menos o chamaremos assim. Ele tem um cabelo escuro como a noite, duas pintas que poderiam ser pinturas, e uma boca em formato de coração, perfeita, que nunca beijei.

O senhor deve conhecê-lo, porque quando ele canta eu até acredito que exista um paraíso. Sensação muito parecida de quando ele sorri e me leva ao céu. Mas eu não venho somente para enaltece-lo.

Eu venho para pedir alguém com a constância que ele não vai me oferecer. Porque talvez o equívoco seja puramente meu, mas eu nunca fiquei até as três da manhã na casa de alguém de quem eu pretendia fugir. Nunca me sentei e ri por horas com alguém que eu não pretendia responder mais. Alguém que não merecesse sequer uma negativa solene, mesmo que à pergunta que nunca foi oficialmente feita. 

Mas, sinceramente, eu nunca tinha passado por isso antes - num contexto geral. Nunca tinha aberto a porta do passado no presente e, mais do que isso, nunca tinha pensado em conjugar o que foi no futuro. Mas, quando o cheiro dele impregnou a minha mente, de alguma forma ele ativou as sementes que estavam latentes em mim há uma década: criou raízes. 

É que eu sou boba a ponto de, ao reencontrar e - mais do que reconectar - reconhecer alguém por quem tanto senti há 11 anos, acreditar que o erro não tinha sido meu, mas do tempo. E que, agora, ele estava sendo gentil comigo me dando uma nova chance. Não ele, o homem. O tempo. A vida que já foi tão cruel comigo. 

Mas foi só mais um erro. Em abrir a porta, em deixar o ar correr solto através das janelas... É que eu era a rainha mais incendiária do tarô e a chama voltou a se avivar. Mas ele é todo água e o fogo não sabe crescer ali. Então ele me mina.

Meus sonhos, minhas esperanças, e nossas possibilidades. Do passado, do presente, e de todo o futuro que eu tentei desenhar, eloquente, como uma adolescente, nos dois tempos que eu já vivi. 

E eu novamente o escrevo na esperança de guarda-lo junto de outros manuscritos e rascunhos que ficaram para trás. Como se ele não tivesse poder algum sobre mim. Como se eu não quisesse só poder alguma coisa em relação a ele.

A milonga segue pra depois, o miocárdio segue descompensado acumulando tanto que eu nem sabia, e eu embromo que vou esquecer, ciente de que não passam de promessas vazias. 

E ele me enche de vazios, silêncios e promessas que nunca foram feitas. De uma música que toca incessante na minha mente, de um odor que não sai das minhas narinas, e de um abraço que parece fuga.

Então, querido santo, eu descreveria uma ilusão e te pediria que o fizesse real... só pra testar a sua força e credibilidade. Porque ele seria o meu milagre, e eu preciso mesmo de um pra acreditar. Mas eu deveria estar pedindo por alguém que também estivesse pedindo por mim. 

Mas é que eu sou fã de histórias inacabadas, porque todo fim me fez chorar.

Desculpa se não fiz essa carta manuscrita e se não tenho uma imagem sua para colocar minha (singela) oração sincera sob ela; é que eu já te admiti que não acredito. Porém, quem acredita diz que eu não preciso acreditar, desde que o senhor acredite em mim. Então, só pra variar, eu peço.

Então, se não for pedir demais, traga a minha canção favorita de Djavan que, para a voz dele, parece exata. 

"Crescei, luar / pra iluminar as trevas / fundas da paixão / eu quis lutar / contra o poder do amor / caí­ nos pés do vencedor / para ser o serviçal / do samurai / mas eu tô' tão feliz / dizem que o amor atrai"

quinta-feira, 26 de março de 2026

Entre tanta gente

Tem uma cadeira na minha casa com o seu cheiro e isso ainda me é surreal.

É que se passou mais de uma década e eu pensava estar imune. Ou só queria estar, porque a verdade é que eu nunca superei completamente. Tanto que eu precisei me afastar, deletar pra nem acompanhar de longe, que era pra não pensar... pra não lembrar ou - ainda pior - pra não assumir pra mim que eu nunca fui indiferente. 

É que você sempre causou algo desde a primeira vez que entrou naquela sala 11 anos atrás. No início uma curiosidade que se fantasiou de repulsa porque você parecia simpático demais, educado demais, quase desenhado demais pra fazer parte. Você parecia deslocado. E eu não pretendia me aproximar. 

Mas então uma aula em duplas mudou o curso natural das coisas, ou só rearranjou com naturalidade o que sempre esteve predestinado. É que, depois de extrair o primeiro DNA juntos, a gente extraiu muitas verdades um do outro. 

Mas, naquela época, a maior verdade ficou oculta. Silenciosa. Porque eu nunca me achei boa o suficiente, legal o suficiente, interessante o suficiente... pra quem, cada momento mais, eu achava demais: bom demais, legal demais, interessante demais... pra mim, que era tão insuficiente.

Se serve de alguma coisa, apesar de eu estar me sentindo pequena e tola agora - olhando pra uma cadeira cheia de uma presença invisível -, eu não me sinto insuficiente pra você mais. Na verdade, nem acho que seja esta a melhor palavra, porque não é sobre bastar... é sobre superar. Sobre surpreender e transbordar.

Porque eu aprendi muita coisa depois de perder o medo, minha família, e os vários sonhos que redesenhei ao longo do tempo. Aprendi outras muitas ao reconstruir minha família e minha história, e sobretudo aprendi que nem toda conexão é forjada e que aquelas relações raras e imediatas não podem ser rasas.

E ontem, quando a gente se abraçou como quem tem ciência de que não se vê há um tempo muito superior ao necessário, eu vi que algumas coisas não se perderam no caminho. 

É que foi muito fácil te incluir na minha sala, compartilhar a refeição e alternar risadas com as dores mais profundas da gente - é que nos reconhecemos nelas também. E, no espaço entre as pintinhas no rosto que outrora eu assumi caber tudo de mim, na noite passada eu vi o telefone sem fio do elevador daquele prédio antigo que você me apresentou.

Eu não quero te perder por mais uma década. 

E seu sorriso ficou ótimo no chão da minha casa. 

"O desfile seguiu / de repente o menino sumiu / eu queria estar lá / entre tanta gente / pra então o achar"

Te vejo de novo?